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A Efemeridade do Jornalismo do Clic…

… e a Necessidade de um Jornalismo Responsável

 

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As mudanças decorrentes dos avanços tecnológicos sempre encontraram reflexos importantes no jornalismo. Com a digitalização e o advento da web, a enorme porta que se abriu para um mundo de novas possibilidades potencializou tais alterações, revelando contradições significativas na comunicação social. A necessidade de atender aos interesses não apenas do público, mas também dos seus veículos – no seio da lógica capitalista –, delega ao jornalismo uma dramática particularidade: o objetivo de atingir a maior audiência possível, sem deixar de exercer o seu papel social.

Ao submeterem-se ao regime de uma concorrência frenética por audiência, não é incomum que alguns veículos, e jornalistas, se utilizem de técnicas e critérios comunicacionais capazes de colocar o interesse do público à frente, inclusive, daquele que jamais deveria deixar de ser o alicerce da função: o interesse público. Desta forma, atingem resultados que, antes de colaborar objetivamente com a construção de conhecimento, contemplam o público através da promoção dos conteúdos e, muitas vezes, das suas próprias imagens através destas publicações. Sobre esta hipótese, desenvolvemos o conceito que chamamos de Jornalismo do Clic.

Naturalmente, o jornalismo contemporâneo depende dos clics, à medida que estes representam a materialização de sua audiência. E é condição cine qua non para esta pesquisa salientar tal consideração. No entanto, compreendemos especificamente como jornalismo do clic a prática jornalística que define a audiência como seu objetivo maior e absoluto, tornando-se capaz de subjugar os princípios de objetividade, e a própria função social que lhe cabe, em troca de uma maior quantidade de clics.
Vemo-nos, assim, diante da necessidade de analisar o processo de reconstrução do jornalismo. A revisão de autores e de conceitos que permeiam a profissão – do surgimento à era digital –, nos permite trazer à luz este tema com a pretensão de ampliar o debate sobre a conjuntura do jornalismo. Nesses moldes, esta pesquisa solidifica a ideia de que o futuro da profissão passa, é claro, pela necessidade da mobilização de audiência. Porém, sem que essa meta se sobreponha ao exercício de um jornalismo responsável, firmado nos princípios da objetividade.

Imediatismo e sensacionalismo

Não menos importante, no que diz respeito ao papel do jornalismo, é a sua estreita relação com os conceitos de imediatismo e sensacionalismo. Bordieu (1997, apud TRAQUINA, 2013) destaca que, num campo marcado pela concorrência, é o imediatismo que estabelece a própria lei do ganho do jornalismo: “quem ganha é quem primeiro dá a notícia” (p.36). Lidar eficientemente com o tempo, portanto, torna-se um fator determinante, cujo domínio pode levar o profissional de jornalismo a consideráveis resultados, principalmente, no tocante à audiência.

Mas a habilidade em despertar sensações, bem como a perícia em atribuir a um fato a impressão de ser sensacional, também pode significar um atalho decisivo para que o jornalista alcance, mais facilmente, as mentes e os corações dos leitores, ouvintes ou telespectadores. O sensacionalismo, na prática jornalística, define-se como “um modo de apelação e exagero, onde há um uso intenso de fotografias chocantes e textos chamativos que apelam para a emoção” (ROCHA, 2015, p.02). Desse modo, não há como desconsiderar que a influência destes conceitos exerce papel preponderante em favor do jornalismo (ou mesmo do jornalista) do clic.

Limites e possibilidades

Mobilizar a audiência, evidentemente, é uma necessidade economicamente incontornável para o jornalismo contemporâneo. No entanto, romper com os princípios da objetividade e do interesse público, mesmo por meio do jornalismo do clic, compromete a responsabilidade para com a função social e pode representar um grande entrave no desenvolvimento histórico da atividade.

Compreendemos, portanto, que o jornalismo do clic, pelo caráter efêmero que o torna refém de resultados mercadológicos, representa um descaminho para a prática jornalística. O que se justifica na medida em que, ao ser influenciado pelo frenesi que determina a busca por audiência, este modelo de jornalismo – consciente ou inconscientemente – tende a tolher os próprios princípios que regem a importância de sua função social. Calcado nisso, estes objetivos devem ser perseguidos no âmbito de um jornalismo diferenciado, que busque atrair o seu público, sim, mas sem esquecer que deve também esclarecê-lo sobre os acontecimentos de interesse público da atualidade.

Ao priorizar a audiência quantitativa – sem observar devidamente o seu modo de reação –, o jornalista deixa de medir o reflexo do seu trabalho junto à formação da opinião pública, o que culmina desvirtuando a sua práxis para um jornalismo autolimitado pelo número de clics. E, nesse caso, há o risco de que as possibilidades do meio digital sejam revertidas, quem sabe, a uma espécie de cilada para o próprio futuro da profissão.

O outro cenário: valorizar a audiência através de um jornalismo responsável, ancorado no seu papel social e utilizando a informação como ferramenta colaborativa no processo de construção do conhecimento. Este, sem dúvida, revela-se o caminho mais estável, capaz de garantir a importância do ofício jornalístico profissional e evitar, assim, que sua existência acabe asfixiada pela ausência de sentido.

Maureci Junior
Jornalista formado pela UniRitter

 

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